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sexta-feira, 9 de maio de 2014

MÚSICA E LITERATURA: FAZEDORES DA ALMA*

Nada melhor que recorrer às palavras de José Pastor, “os poetas são fazedores da alma” título da sua entrevista no livro “Fazedores da Alma” (certamente inspirado na sua afirmação) dos escritores/jornalistas Jorge de Oliveira e Marcelo Panguana (1999).

FOTO: Marcos Vieira


Um dos exemplos flutuantes do embrião música-literatura é o casamento da poesia e a própria música. Muitas vezes associada às artes visuais, incluindo a fotografia, que a Literatura pode ser ouvida num tambor, numa Mbira, Timbila, Xigovia, até aos mais convencionais instrumentos como o Saxofone, Guitarra, Piano, parece mais ocidentalizado que africanizado, pelo menos formalmente. Porque no informal, a minha avó nunca contou-me estórias sem cantar e nunca cantou sem contar estórias. Malangatana, por exemplo, o monstro sagrado das nossas artes plásticas, já veio a confessar que pinta cantando e todos já vimos o “crocodilo” a solfejar.
Tem uma oficina, linha de olhar, lugar e ambiente, mas é na solidão onde o poeta se transforma em ourives e lapida palavra a palavra ou pedra a pedra, para ser mais patriótico. E como é a música?
Em África o nascimento do verbo foi com os sons. Aqui, Jesus não passou mas Deus sempre esteve e multiplicou-se em vários deuses. Tudo isso permitiu-nos nunca bater palmas sem mexer a cintura, aí vem-me a dança, mas também queremos cantar, vêem-me as histórias e a melodia, vem-me o texto, o poema, o batuque.
Lineu, um bom poeta nosso, disse a quando do parto do seu “cada um em Mim” (Literatas, 2014) que não poderia falar da sua poesia sem mencionar Dr. Mussá Rodrigues, o próprio cantor da província da Zambézia que andou bairros e ruas a fio cantando e contando as suas histórias, vivências ou peripécias do seu povo. Foi incitador do poema, do verbo, eis um Nelson Lineu, poeta nosso, com qualidade melódica quase que com passos de dança e nostalgia a que nos remete Dr. Mussá Rodrigues.

É poesia ou prosa/ é o compositor, é o intérprete, tanto faz. Há versos com música e música com versos. Recorre-me agora músicas do álbum “Não é preciso empurrar” dos Ghorwanes, com a forte mão de Mia Couto e encontramos a música “Moçambipreto” com o seguinte coro: moçambipreto, moçambibranco, moçambindiano, moçambimulato. Um poeta é que fez esse texto, se calhar nas páginas de um livro não faria muito gosto, mas na voz de Roberto Chitsondzo fez milagres e em cada ouvido há uma semente que cresce. Afinal, é o casamento da poesia e a música, dois caminhos que sempre deram ao mesmo destino, numa aldeia onde todos se chamam “fazedores da alma”.

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*Desafiado por Cremildo Bahúle a escrever algo para uma publicação, ele propôs que o tema fosse MÚSICA e LITERATURA. Sem saber o que escrever surgiu-me isto. E decidi partilhar por me ser interessante o desafio.

terça-feira, 23 de julho de 2013

ENTREVISTA COM LUCÍLIO MANJATE

Travei uma conversa alongada com o escritor, crítico e docente de literatura moçambicana, Lucílio Manjate, a que anuncio aos amigos que em breve poderá ser lida na íntegra. Agora apenas ficam “umas palavras” que esse contador deixa….

Lucílio Manjate

Sistematizar uma literatura como a nossa não é uma tarefa fácil. Estamos a falar de uma literatura relativamente jovem, quer dizer, depende dos parâmetros que queremos estabelecer para dizermos que é uma literatura jovem ou mais adulta, por aí adiante. Mas não é tarefa fácil de qualquer forma e não é bem verdade que os estudos sobre a literatura moçambicana vêm de fora. É preciso, se calhar, percebermos a natureza desses estudos, quer dizer, se nós estamos a falar de uma sistematização estejamos a falar mais ou menos em escrever uma história dessa literatura. Olhar literatura como um sistema não é tarefa fácil, não é só olhar o texto literário, e mesmo que olhemos ao texto literário numa perspectiva sistémica, podemos ter muitas dificuldades, posso citar o exemplo trabalhos que abordam essa visão sistémica, sobretudo de ponto de vista do texto, trabalhos como do professor Almiro Lobo, Francisco Noa, Fátima Mendonça, são alguns trabalhos que procuram observar numa perspectiva histórica a literatura moçambicana. Portanto, isso leva seu tempo. O que acho que esteja a acontecer é que estudiosos doutras paragens tem estado a incidir sobre o texto literário, em termos muitos concretos, de um determinado autor que é um processo que nos conduz a uma visão sistémica. Mas são dois momentos, um momento é trabalharmos o texto, pegar no teu livro e escrever sobre ele e publicar, outra coisa é eu querer perceber por exemplo a origem da literatura moçambicana, aí a abordagem é mais sistémica.

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O perfil do estudante que eu e os meus colegas temos estado a enfrentar é um perfil pobre em termos de leitura. Eu falo de leitura nem estou a falar do texto literário, refiro-me ao texto, falo de leitura, leitura normal, jornal, um texto informativo, há um défice muito grande, e a imagem que tenho é do trabalho que está sendo feito nos níveis mais abaixo, secundário e primário é um trabalho que deixa muito a desejar, é muito pobre, e isso tudo entra naquele pacote de problemas que já se tem discutido que é preciso repensar o nosso sistema de educação e pensar o que queremos quando educamos, qual é a filosofia, um debate que já tem barbas brancas. Portanto, os estudantes que entram na universidade são muito fracos, pobres, tu perguntas qual é o livro que ele já leu, vai te falar de um manual de língua portuguesa, mas quando fazemos essa pergunta estamos a procura de leitura de textos ficcionais completos, estamos a procura se tenham lido um livro de poesia, um romance, contos, coisas de género.


Ao longo dos dias vem a entrevista por inteiro. Fiquemos pelo debate daquilo que o professor nos deixa...
COMENTE.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

I MOSTRA DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL EM MAPUTO

É já neste sábado e domingo (20 e 21 de Outubro) que Maputo vai acolher a I MOSTRA DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL, a ter lugar na FEIMA das 09 às 17 horas.

Oficina de contadores de histórias e de fabrico de livro para crianças a partir das 09 horas do sábado gratuitamente.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Entrevista ao escritor Valdeck Almeida de Jesus

Eduardo Quive
Na imagem: Valdeck Almeida de Jesus

________  Valdeck Almeida de Jesus é um escritor e jornalista que também serve o estado – funcionário público. Conhecido como exaltador da verdade pelos que tem coragem de viajar pelas suas obras. Falei medo e pode-se pensar que escreve coisas assustadoras, e pode até ser verdade, mas se considerarmos que ele fala de factos verídicos do quotidiano “Heartache Poems”, ”Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland” obra em que nesta entrevista o escritor chega a dizer que dentre vários assuntos, o autor faz revelações pessoais “Apaixonei-me por muitas pessoas. Desde a professora ao vizinho que nunca soube de minha admiração por ele.”
Por outro lado, Valdeck assusta a própria história da sua vida, contada em  “Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden” – “Tanto mostro as coisas boas, quanto as ruins. Nasci em Jequié-BA, onde passei muita fome e comi coisa do lixo. Não tive brinquedos, não tive uma casa própria, não tive acesso a uma educação e serviço de saúde mínimos.” Pois é, estamos perante, um escritor de longas viagens da vida transmitidas em jeito de boa literatura.



Valdeck fale-nos do mistério que norteia o seu primeiro livro (corrija-me se estiver errado) o “Heartache Poems. A Brazilian Gay Man Coming Out from the Closet”? trata-se de alguma revelação de alguma orientação sexual do autor?

Bem, os poemas são feitos tanto para homens quanto para mulheres e foram criados na minha adolescência, numa fase em que muitos jovens estão em busca de respostas para muitas questões da vida. Apaixonei-me por muitas pessoas. Desde a professora ao vizinho que nunca soube de minha admiração por ele. Todas as reflexões sobre estes sentimentos foram traduzidas em poesias, as quais eu paguei para traduzir e publiquei nesta obra.

Heartache Poems” é um livro-confissão e ao mesmo tempo composto de poemas fantasias, as mesmas fantasias que povoavam minha mente, sobre sexualidade, posicionamentos políticos, incerteza do futuro, aspirações de trabalho etc.

Como é que o livro foi recebido pela classe crítica literária, social e pelo público em geral?

Uma obra literária sempre carrega muito do seu autor. Este tipo de literatura em que as paixões pessoais aparecem muito claras nem sempre são bem vistas, pois muita gente prefere viver no anonimato, na hipocrisia, vivendo uma coisa e dizendo que vive outra. O bom é quando um leitor se identifica com a história, tanto pode valorizar o livro quanto desqualificá-lo. Como diz Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Nesse sentido, para quem gosta de ser exposto ou de aprender com a exposição alheia, o livro é bom; para aqueles que preferem viver na penumbra, viver de aparências, o livro é péssimo.

A crítica falou muito bem, mas não escrevo para os críticos literários. Quando faço uma obra, penso primeiro em mim, em como eu gostaria de comprar um livro. Depois, penso nos leitores, aqueles que levarão um exemplar para casa. Estes, os leitores, me elogiaram muito, principalmente os amigos (risos). Quanto aos inimigos meus e da literatura, prefiro que eles se calem e não saibam onde estou. É mais seguro para todos...

Na altura em que publica esta obra (2004) já era conhecido na esfera literária da Baia e até do Brasil. Algo mudou drasticamente na sua vida?

Eu sempre fui uma pessoa muito transparente. Quando gosto de algo ou de alguém, eu demonstro facilmente. Quando simpatizo, também faço com que a pessoa perceba. Se você relaciona minha vida com a publicação deste livro, pouca coisa mudou. Não sou uma pessoa que se expõe pelas ruas, não sou muito de participar de festas e encontros sociais ultimamente, mas na época da publicação eu estava em todos os cantos, praças, shows musicais. Recebi muitos elogios e fiquei feliz com o resultado.

Cada livro que escrevo é como um capítulo de minha vida. Aprendo muito quando estou colocando no papel minhas experiências e falando do que vi e vivi. Sou uma pessoa que preserva a tradição, mas ao mesmo tempo eu transgrido regras, sem agredir ninguém. Muitas vezes o mais agredido sou eu mesmo. O livro foi uma forma de dizer ao mundo o que eu pensava e sentia e isso foi o bastante. No dia a dia, sou pacato, caseiro, saio pouco, a não ser para casa de amigos e encontros literários. O que mudou em minha vida foi a forma de encarar as situações, os problemas e a tentativa de encontrar soluções. Não escrevo para chocar ninguém. O que escrevo é o que penso. Se minha forma de ver a vida escandaliza alguém, o problema não está em mim e sim em quem lê e se admira com minha obra.

No seu último livro, publicado em 2010, vem a falar do mesmo assunto referido no primeiro “o ser gay” desta vem sendo mais provocador em “Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland”

Como eu disse, eu sou o que sou e não o faço para escandalizar. Aliás, minha vida é muito discreta, sou uma pessoa que paga impostos, cumpre regras, para no sinal vermelho no trânsito, pago minhas contas em dia, respeito a vizinhança etc. A literatura em minha vida é uma forma de desabafar, de transgredir, de gritar para todos que eu sou assim, que existo. “Alice in Wonderland” é mais um capítulo de minha vida, algo que passou. Na obra tem muita coisa real, verdadeira, que aconteceu comigo, e muita ficção. Há relatos de outras pessoas que transformei em literatura, e há personagens que nunca existiu de verdade. A provocação vem justamente nos relatos de pessoas que nunca teriam coragem de se declarar e me pediram para mostrar no livro que elas existem. Outros relatos são de pessoas que vivem vida dupla, de dia são funcionários públicos, advogados, e à noite procuram os prostíbulos, buscam as drogas etc... É a literatura retratando a vida real. Minha função é como daqueles fotógrafos que viajavam pelas cidades do interior, fotografando pessoas onde não existiam esse serviço.

Mas logo depois destes temas, vem um Valdeck Almeida de Jesus com outra face “Feitiço Contra o Feiticeiro”, mas escrevendo poesia. E como pode o feitiço virar contra o feiticeiro? A que nos direccionam os poemas nesta obra?

Este livro também é composto de poemas da minha adolescência. Eu disse anteriormente que o livro “Heartache Poems” era composto de obras diversas. O “Feitiço contra o Feiticeiro”, idem. O título do livro é um cordel, história fantástica criada por mim, com uma lição de moral. Este poema fala de um casal que procura ficar rico sem trabalhar e faz pacto com o Satanás para conseguir riqueza. Como nem sempre a riqueza vem sem obrigações, o cordel demonstra que enriquecer sem fazer força também tem consequências. Outros poemas deste livro são homenagens a pessoas, lugares e parte são reflexões de um jovem acerca da incerteza da vida. Esta obra está esgotada, mas é sempre muito procurada. Pretendo reeditá-la. Doei alguns exemplares para a Biblioteca Comunitária do Calabar, bairro pobre de Salvador-BA, e a criançada do bairro leu muito meus textos, inclusive teve mais leitores do que Carlos Drummond de Andrade. Fiquei muito feliz quando Rodrigo Rocha Pita, um dos coordenadores da biblioteca me deu a notícia. Fiquei tão feliz que patrocinei dois livros de poesias com crianças do bairro, cujo título é “Abre a boca Calabar”. Nestas duas obras os poetas mirins falam do bairro, da escola, da biblioteca e da vida deles numa cidade rica em cultura e em dinheiro e ao mesmo tempo tem bolsões de misérias e bairros inteiros onde as pessoas passam fome. “Abre a boca Calabar” é uma forma de denunciar isso. O bairro fica encravado entre prédios de vinte e trinta andares, perto de um shopping de luxo e próximo ao circuito do carnaval, por onde circulam milhões de dólares. No entanto, a localidade ficou abandonada desde a fundação, há mais de trinta anos.

Salvador é tida como a cidade onde tem mais negros fora da África. Se nos países africanos a fome e a desigualdade social massacram muita gente, em Salvador não é diferente. Ali se encontram pessoas com renda de milhares de dólares e pessoas que vivem com míseros centavos. A desigualdade é gritante. E o “Abre a boca Calabar” denuncia, de alguma forma, essa injustiça social.

Em geral, o que o leva a escrever? Sempre quis ser escritor? Que influências teve para chegar ao mundo da escrita?

O que me leva a escrever é a necessidade de gritar, de denunciar ao mundo tudo o que vejo. Tanto mostro as coisas boas, quanto as ruins. Nasci em Jequié-BA, onde passei muita fome e comi coisa do lixo. Não tive brinquedos, não tive uma casa própria, não tive acesso a uma educação e serviço de saúde mínimos. A luta foi grande mas consegui vencer, graças à educação que minha mãe me deu. Acredito que tenho compromisso com os outros cidadãos, pois não dá para se sentar à mesa para comer tranquilamente, enquanto outros irmãos passam fome. A injustiça me incomoda muito e escrever é uma forma de estimular as pessoas a pensar e a tentar mudar a realidade da vida. Na minha opinião educação é a arma principal que um cidadão tem direito. Depois de educado cada um pode escolher alternativas para modificar a realidade, influenciar para o bem ou para o mal. Não é à toa que muitos governantes se “esquecem” de investir em educação de qualidade. Com um povo desinformado fica mais fácil controlar o poder e impedir que as pessoas evoluam. Meus escritos lutam contra esta tirania que mata muito mais que tiros de canhões.

As influências primárias que tive para escrever foram as estórias que minha mãe me contava. Paula Almeida de Jesus era uma mulher aleijada das pernas, analfabeta e filha única. Mas apesar de não saber ler nem escrever ela tinha uma visão de mundo e uma ética muito fortes. Sempre me ensinou a respeitar o espaço dos outros, não invadir a privacidade alheia, evitar atrapalhar qualquer um. Eu me recordo que uma vez, por causa da fome, eu peguei um coco que encontrei num quintal aberto. Quando cheguei em casa ela mandou que eu voltasse e deixasse o coco no local onde encontrei.

Ter a poesia como o seu género, foi por opção própria? Qual é o seu percurso nos géneros literários?

A poesia veio com os cordéis, que são livretos vendidos em feiras livres e expostos em cordas nas praças das cidades do interior do Brasil. Minha mãe nasceu em Amargosa-BA, Recôncavo Baiano. Meu pai nasceu em Santo Antônio de Jesus-BA, na mesma região, onde a cultura popular é muito valorizada. Mamãe foi muito influenciada pela cultura local e passava para mim muitas das experiências de vida dela, me contava casos e estórias fantásticas. A poesia veio daí. Veio também de livretos de poesia que eu comprava na escola. A linguagem cadenciada, as rimas e a forma de escrever me encantavam. Comecei a querer escrever também do mesmo jeito e fui me tornando poeta desde os doze anos de idade.

Depois fui enveredando pelos contos, durante os anos de estudos na escola. Somente aos quarenta e três anos de idade comecei a escrever romances. Comecei descrevendo a história de minha família e depois disso já escrevi quatro livros, ainda inéditos. Agora já tenho muitas crónicas e artigos, influência do curso de jornalismo que fiz.

Mas logo a seguir vem-nos com prosa em “Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, mas como sempre, despertando atenção com mais uma história dramática – fome e a miséria por mais de vinte anos na sua família. Fale-me desses vinte anos de fome por si vividos?

Você está certo. “Memorial do Inferno”, como eu disse, foi meu primeiro texto em prosa. Este romance foi escrito durante quatro anos. Eu sempre tive vontade de registar as memórias de minha mãe, os remédios caseiros que ela sabia. Mas nunca consegui parar para ouvi-la, escrever tudo aquilo em papel e transformar em livro. Eu me achava incapaz de fazê-lo. Um belo dia, voltando da faculdade, no meio do trânsito, me veio à mente todo o resumo do livro. Quando cheguei em casa fiz um rascunho de umas dez folhas e daí em diante eu escrevia umas cinco páginas por dia. Infelizmente minha mãe não viveu para ter o prazer de ver o livro pronto. Mas sei que onde ela estiver está feliz com a obra.

Os vinte anos de fome me deixaram marcas profundas. Tanto em mim quanto em meus sete irmãos. A gente comia carne podre, catava peixe no esgoto, pegava comida estragada no lixo e dormia com fome muitas vezes. Minha família não tinha dinheiro para comprar uma casa nem móveis. Vivíamos de aluguer e quase todo mês o dono da casa nos expulsava por falta de pagamento. Era um sofrimento sem fim. Meu pai logo adoeceu e ficou maluco, foi internado por vários anos em clínicas para loucos. Minha mãe, paralítica, é que cuidava de tudo. A gente vivia de porta em porta pedindo um pedaço de pão, um pouco de feijão ou arroz. Morávamos perto de pessoas também muito pobres, que não tinham como nos ajudar. Quase sempre voltávamos para casa sem nada e passávamos o dia com muita fome. À noite, minha mãe nos consolava dizendo que no dia seguinte Jesus viria trazer comida. A gente acreditava, mas no dia seguinte ninguém aparecia na porta trazendo algo para saciar nossa fome. A revolta era grande, mas minha mãe sempre estava ao nosso lado, nos consolando. Eram dias e noites de tristeza. Muitas vezes eu ia trabalhar em troca de um prato de comida. E outras vezes, quando eu chegava da escola, tarde da noite, tinha que ir dormir e sonhar com comida, pois não havia nada para comer.

Tudo isso eu conto neste livro que faz rir e faz chorar. Muita gente se emociona muito com os relatos, pois são verdadeiros e carregam uma carga muito forte de emoção. Felizmente este tempo passou e hoje posso ir à padaria comprar pão, ao mercado comprar carne. Agradeço muito a minha mãe, que muitas vezes se humilhou pelas ruas de Jequié pedindo esmolas para nos sustentar e nos manter na escola, o que foi decisivo para que todos os filhos pudessem vencer na vida.

O que o levou a contar esta história ao mundo? Será pelo facto de ter vencido?

Eu conto minha história de vida para denunciar a desigualdade social e incentivar aos cidadãos a cobrar dos governantes uma postura respeitosa em relação à população. Escrevo para mostrar que se pode vencer com honestidade, sem envolvimento com drogas ou com armas de fogo. Escrevo para que meu filho e sobrinhos possam se orgulhar da família que tem e para valorizar cada conquista. Escrevo para demonstrar que, se eu não tivesse tido a educação familiar que minha mãe me deu, hoje eu seria um assaltante, um assassino, um político corrupto ou um vagabundo a viver às custas da sociedade. Escrevo para mostrar que é possível salvar uma geração da fome, da miséria e da falta de inclusão social.

Estamos perante um Valdeck Almeida de Jesus que nas suas obras fala-nos de factos reais e da sua vida quotidiana?

Exactamente. Eu não acredito em arte pura, em coisas sem sentido e sem provocações. Creio que um artista deve ser mais que um escritor, actor, dançarino. Ele deve mostrar ao mundo uma nova forma de ver, de fazer política, de conquistar direitos, sem guerras, sem sangue. A arte é uma arma poderosa e se o artista souber usá-la, faz uma revolução no mundo. O mundo só existe porque o homem existe e o homem tem direito de modificar o seu habitat. Eu não vou fazer uma obra literária apenas para divertir. Ela (a obra), vai divertir, mas também vai ensinar alguma coisa.

Que condições considera necessárias para se ser escritor?

Para ser escritor é necessário ser leitor. Eu leio de tudo. Leio jornais, revistas, rótulos de xampus, receita de remédio e de bolo, embalagens de qualquer coisa. Sou um consumidor de livros e de revistas e jornais. Um escritor não pode ser alheio ao seu meio social, não pode ser isolado do contexto em que vive. E para isso ele deve participar da vida da comunidade, mesmo que observando. Deve opinar, denunciar, criticar, divertir, ser cidadão pleno. Afinal, ele é dotado do poder da palavra e deve se valer disso.

O que considera bom escritor? Que livros você lê?

Leio Jean Wyllys, Carlos Drummond de Andrade, Agualusa, Guimarães Rosa, Cora Coralina, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Renata Rimet, Leandro de Assis, Cymar Gaivota, Miriam de Sales, Domingos Ailton, Lima Trindade, José Inácio Vieira de Melo, Carlos Souza, Roberto Leal, Carlos Antônio Barreto, José da Boa Morte, Leo Dragone, Leandro Flores, Vanise Vergasta, Aline Vitória, Clara Maciel, Varenka de Fátima, Aurélio Schommer, Antônio Cedraz, Deomídio Macedo, Carlos Ventura, Carlos Conrado, Dé Barrense, Adolf Huxley, Saramago, Pablo Neruda, Gabriel García Marquez, dentre outros.

O que sabe da literatura de outros países lusófonos, em particular de Moçambique? Conhece ou admira algum escritor e uma obra moçambicana?

Eu conheço Mia Couto, de ouvir falar, mas ainda não tive oportunidade de ler obras dele. Agora estou conhecendo Eduardo Quive e mais alguns poetas contemporâneos. Pretendo me aproximar mais dos países lusófonos e dos seus autores. Por muitos anos o Brasil ficou isolado desses irmãos africanos, não pela distância mas pela falta de políticas públicas no sentido de incentivar intercâmbios. Não sou de esperar por iniciativas de governos e já estou me propondo a conhecer Moçambique, Angola, Cabo Verde e outros países de língua portuguesa.

Compara-se com algum escritor no mundo?

Acho que cada escritor tem seu estilo, sua marca pessoal. Eu não gosto de me comparar, mas ficaria muito feliz se minhas obras pudessem ser lidas e comentadas pelo mundo todo. Já publiquei três livros em inglês, justamente para tentar chegar a vários países, já que a língua inglesa é universal. Tenho meu estilo contestador e denunciador. Em minhas obras sou irônico e sarcástico. Não sei de outro autor que tenha estas mesmas características nem quero imitar ninguém. Se os leitores gostarem do que escrevo, vai ser ótimo. Se não gostarem, infelizmente não vou mudar o meu jeito de ser e escrever para agradar ou para vender livros.

Olhando para seu curriculum noto que é “muita coisa”, mas em que área específica você se formou?

Sou jornalista por formação concluída em Fevereiro de 2011. Apesar de ter iniciado vários outros cursos, os abandonei por problemas de saúde ou porque não me identifiquei com nada daquilo. Coincidência ou não, eu fundei, juntamente com Domingos Ailton e outros colegas de escola, em 1987, o Grémio Livre Dinaelza Santana Coqueiro, primeira entidade estudantil de Jequié após a Ditadura Militar. Neste grémio eu fui também fundador e director de imprensa do Jornada Estudantil, jornal que denunciava a falta de compromisso da escola com a educação. Vinte e quatro anos depois eu me formei em Comunicação Social. Acho que meu destino era ser jornalista.

Notei também que se destaca na colaboração na imprensa baiana e brasileira no geral. Qual é a sua relação com o jornalismo?

No jornalismo eu tenho compromisso com a ética, com a justiça social, com a defesa dos direitos humanos, com as minorias e com a liberdade de expressão. Estas são minhas bandeiras.

Tem promovido vários concursos literários. Qual é o objectivo das suas acções?

Meu objectivo é dar oportunidade a muitos poetas que nunca seriam publicados por editoras comerciais. Os poetas são malditos porque falam da realidade, denunciam injustiças. Ao lado deles estou sempre. E o concurso abre portas e caminhos para estas pessoas que precisam de apoio e divulgação. Desde 2005 os concursos que realizo já publicou mais de 900 textos de poetas brasileiros, portugueses, moçambicanos e angolanos, argentinos, espanhóis, americanos, ampliando as fronteiras do Brasil e aproximando povos de língua comum.

Uma das questões a que sempre se dedicou, é a divulgação da Literatura Baiana e promoção de novos autores. Na sua opinião em que estágio está a Literatura Baiana e, no seu entender, quais são os que se podem chamar os autores do futuro nessa região?

Eu citei alguns autores baianos numa pergunta anterior. Há muitos outros. A Baia é um celeiro de cultura. Aqui florescem poetas, poetisas, cronistas, contistas, romancistas. Seria leviano de minha parte dizer que este é melhor que aquele e que aquele outro vai se sobressair. Quem pode dizer isso são os leitores. Mas nem sempre o valor de um escritor pode ser medido pela quantidade de leitores. Alguns escritores baianos conseguem patrocínio privado, outros são apoiados pelo Estado, e muitos vão ficar anónimos porque não concordam com as políticas partidárias ou culturais. Posso falar de minha simpatia por Jean Wyllys, Leo Dragone, Renata Rimet, Leandro de Assis todos os que citei na pergunta anterior, pois são pessoas com as quais eu convivo e sei que escrevem sobre a realidade e eles escrevem com a alma.

Quais são os seus planos futuros: na vida pessoal e no âmbito literário?

Pretendo encontrar um amor para a vida toda, para compartilhar minha vida e ser minha fonte de inspiração (risos). Sou funcionário público e pretendo continuar, para ter dinheiro para investir em literatura, sem precisar pedir a governo ou a empresários. Tenho um sonho de fundar uma editora baiana que valorize o autor baiano, sem deixar de dar espaço a africanos, argentinos etc.

Embora vencedor de vários prémios, pensa em batalhar por mais algum? Qual?

Meu maior prémio é quando recebo comentários de leitores. Seja para criticar, seja para elogiar. Escrevo para amigos e inimigos. Quando uma pessoa que nunca gostou de leitura pega um livro meu, lê e comenta eu fico feliz. Meu maior prémio é este. E é por isto que distribuo livros impressos nos eventos que participo; e é por este motivo que coloco minhas obras disponíveis em PDF, gratuitamente, na internet, para que muitos tenham acesso.

Vejo que para além de escritor tem outra profissão. Será escrita a sua profissão principal?

Minha profissão principal é no serviço público. Sou funcionário do governo federal brasileiro. Gostaria muito de poder viver de literatura, mas isto ainda é um sonho.

O que você mudaria no mundo se lhe fosse dada a presidência mundial por um dia?

A primeira coisa que eu faria era investir em educação na África inteira. Abriria milhares de universidades e cursos de literatura, arte em geral. A arte liberta.

Acha que os escritores dos países da CPLP interagem entre si?

Não tenho informações suficientes para afirmar isso. Mas acho que podemos, todos, agir de forma coordenada, a fim de aproximar mais os países de língua portuguesa, especialmente os de África.

E os livros será que tem espaço de circulação nesses países? O que acha que deve ser feito?

Acho que o livro deve circular livremente entre os países de fala portuguesa, sem impostos. Talvez até de graça para os países que não possam comprar. Mas circular nos bairros, nas praças, não nos gabinetes e palácios. Falar de literatura e de arte é fácil, quando se está sentado num trono, numa sala com ar condicionado. O que é necessário é levar o livro ao leitor, onde ele estiver.

A propósito, à que país da CPLP você já viajou? E quando é que teremos o Valdeck e os seus livros em Moçambique?

Só conheço Portugal, mas mesmo assim só os pontos turísticos. Quero viajar a Cabo Verde, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe e Timor-leste. Eu desejo ser lido nesses países todos. Moçambique está nos planos de minha próxima viagem. Se alguma editora quiser investir, eu abro mão dos direitos autorais por vinte anos, para que os livros cheguem baratos ou de graça aos leitores. Se você quiser, já posso enviar alguns exemplares para a biblioteca e para o Movimento Literário Kuphaluxa.


VALDECK ALMEIDA DE JESUS, 45 anos, jornalista, funcionário público, editor, escritor e poeta. Embaixador Universal da Paz, Membro da Academia de Letras de Jequié, Academia de Cultura da Bahia, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Poetas del Mundo, Fala Escritor, Confraria dos Artistas e Poetas pela Paz e da União Brasileira de Escritores. Publicou “Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden”,Feitiço contra o feiticeiro”, “Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia”, “30 Anos de Poesia”, “Heartache Poems”, ”Yes, I am gay. So, what? – Alice in Wonderland”, dentre outros, e participa de mais de 60 antologias. Organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005, o qual já lançou mais de 600 poetas. Colabora com os sites Favas Contadas, PressReleases, Artigonal, Web Artigos, Recanto das Letras, Portal Literal, Portal Villas, Pravda, Zona Mix, Gay.Com, Observatório da Imprensa, PodCultura, Overmundo, Comunique-se, Dzaí, Difundir, Jornal do Brasil, Só Artigos e À queima roupa. Tem textos divulgados nas rádios online Sol (Diadema-SP), Raiz Online (Portugal) e CBN (Globo). Site: www.galinhapulando.com

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Escrever para desvendar mistérios do além

Por Eduardo Quive

É o seu décimo primeiro livro. Primeiro foram os contos em “Xitala-Mati” obra publicada em 1987, seguiram-se depois, Magustana (novela-1992), “A Noiva de Kebera” (contos 1994), “A Rosa Xintimana” (romance 2001), “O Domador de Burros” (contos 2003), “Meledina ou a Estória duma Prostituta” (romance 2004), “A Metamorfose” (contos 2005), “Contos Rústicos” (contos 2007), “Contravenção, uma História de Amor em Tempo de Guerra” (romance 2008), Caderno de Memórias, Vol I” (contos 2010) e o recém lançado livro de prosa “Mitos – histórias de espititualidas” a que debruçamos neste artigo. 
Como se vê, estamos a falar de Aldino Muianga, nascido a 1 de Maio de 1950, considerado um autor impossível de prever o que vai lançar e quando o vai fazer. Mas há quem o tenta decifrar. Felipe Matusse e Nataniel Ngomane, escalam a vasta obra deste autor, este último indo mais longe, ao colocar ao lado de outras duas ilustres figuras da Literatura Moçambicana – Aníbal Aleluia e Paulina Chiziane. Estas comparações, surgem mesmo a propósito do novo lançamento de Aldino Muianga, da obra “Mitos – histórias de espiritualidade” – uma consagração deste escritor como um autor do além. Servindo-se do ser médico que o é por longos anos, para espreitar outras medicinas capazes de tratar outras doenças, que ascendem ao meio físico humano – o espírito. E assim navega, Muianga desta vez, em estórias curiosíssimas que se podem considerar da tradição moçambicana, mas que em algum momento, associam-se ao obscurantismo, mesmo que uma considerável maioria a valorize.
Aliás, mesmo sem querer esquivar do assunto em tratamento neste artigo, vale a pena recordar que há dias, quando se celebrava o dia da medicina tradicional, divulgaram-se dados que indicam claramente a associação dos moçambicanos à estes tratamentos em cerca de 70 por cento.
Voltando ao assunto, Aldino Muianga, segundo estes estudiosos, vem demonstrar que é de facto um perito na matéria, de acordo, com o meio em que nasceu e cresceu (bairro Indígina, actualmente chamado Munhuana) e do trabalho que faz.


Escrita que revela a nossa identidade

Para Filipe Matusse, a quem coube a apresentação deste livro, Aldino Muianga é um autor no qual se revela a moçambicanidade e em “Mitos – histórias de espiritualidade” encontramos “uma nova proposta que aborda a nossa essência como seres humanos, por que nós somos seres biológicos, sociais, espirituais e psíquicos. Então o Aldino Muanga neste livro, foi captar a dimensão espiritual e escorrer à volta dela”.
Matusse vai mais longe, ao considerar esta obra num “manual” em que se pode achar respostas daquilo que sempre quizemos saber como por exemplo, “o porque é que existo, vale a pena realmente viver?” e conclui, “é um livro que nos apazigua, nos leva a um encontro de nós próprios”.

Por seu turno, o académico Nataniel Ngomane considera Aldino Muianga, como um escritor de grande dimensão, isto porque tem um percurso e coerência na sua entrega para a arte de escrever, facto que é comprovado pela sua vasta publicação literária.
Entretanto, Ngomane, explica que há grandes autores que se tornaram grandes, apenas por um único livro, o caso de Luís Bernardo Honwana, mas este caso específico de Aldino, tem a ver com essa perseverança e entrega na escrita.
Nataniel Ngomane compara Aldino Muianga com outros autores moçambicanos como José Craveirinha, Aníbal Aleluia e Paulina Chiziane.
Segundo o académico, há um elemento comum à todos eles, que é o compromisso que estes têm com o País, ao trazerem dentro dos seus textos as diversas realidades moçambicanas.
Feitas estas análises, Ngomane conclui que estamos perante um autor de obrigatória leitura, porque contribui para promover a imagem de Moçambique não só como País, mas como País de crenças moçambicanas, hábitos, sonhos, preocupações, organização social, cultural e religiosa. 

“Pelas águas mestiças da história - Uma leitura de O Outro Pé da Sereia, de Mia Couto”

Por Eduardo Quive

De tese de mestrado em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense no Brasil, Luana Antunes Costa, agora doutoranda em estudos comparados de literaturas de língua portuguesa, transformou o livro do consagrado escritor moçambicano, Mia Couto, “O outro Pé da Seria”, em um ponto de partida para a questão da mestiçagem.

Pela naturalidade da autora brasileira, podia-se logo a prior se imaginar o termo mestiçagem no mundo em que vive, sim, isso conta, mas conta principalmente a visão universal que Luana tem sobre as questões da raça, por isso o atrevimento de intitular a sua obra em que faz uma leitura do livro de um dos maiores escritores moçambicanos em “Pelas águas mestiças da história”.
Na obra, Luana Antunes Costa, que prefere ser tratada de professora do que escritora, justifica o seu encontro com o romance que é feito por um moçambicano a relatar acontecimentos nacionais, pelas vivências da terra brasileira sobre a questão das raças. Aliás, no debate a professora levanta através desta obra, o facto de que na sua terra reina um silêncio sobre o racismo e a desigualdade com que é tratado o negro, sendo por isso que usa a expressão “Mestiçagem” no livro.
Pode-se concluir (impossível) que neste livro, mais do que ler, Luana, faz provocações a sociedade brasileira, e diga-se a africana também, para um olhar sobre as vivências, atitudes e acções do quotidiano no que diz respeito à questão das raças.
“Acho que raça ficou uma palavra maldita, não se fala hoje. Existem metáforas. Vou falar de étnico. Agora a moda é o étnico. Vão usar outras palavras no lugar de raça. Quando estava a pesquisar esse romance de Mia Couto, a primeira coisa que me veio foi o que eu identifico ser um discurso da mestiçagem, que é um entre cruzamento das culturas, dos povos, das línguas, o conhecimento que se vai aprendendo com o outro nas trocas. Acredito que em “O Outro Pé da Sereia” é isso que está muito forte nesses encontros”. Considera a autora.
Por outro lado Allan da Rosa, também brasileiro, lançou no evento que teve lugar na Associação dos Escritores Moçambicanos, os livros “Zagaia”, “Vão” e “Da Cabula”.
De referir que os académicos Luana Antunes Costa e Allan da Rosa, se encontram em Maputo, para dentre várias actividades, realizar um intercâmbio cultural no âmbito do projecto “Brasilidades Africanas” realizado por estes e o Movimento Literário Kuphaluxa.
Já à passada, estes vem realizando várias actividades com o Kuphaluxa, com destaque para o Workshop sobre as Literaturas Africanas no Brasil, a exibição de filmes que retratam a cultura afro no Estado Brasileiro, e ainda uma mesa de debate sobre a Literatura Moçambicana e Brasileira na (AEMO), com um painel constituído pelos académicos Luana Costa e Allan da Rosa – Brasil, Juvenal Bucuane, Lucílio Manjate, Aurélio Furdela, Sangari Okapi e Clemente Bata – Moçambique.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Roda de História neste sábado na Minerva Central em Maputo


Terá lugar neste sábado as 10 horas e 30 minutos, a Sessão de Contos na Livraria Minerva Central em Maputo. Trata-se da cerimónia de encerramento do curso "A Arte de Contar Histórias", promovido pelo Instituto Camões de Maputo. Contarão as histórias, Ana Luiza Baptista, Ana Rita Sequeira, Bernardo Chicamba, Nuno Negrões, entre outros. As ENTRADAS são LIVRES

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Governo nega registo da fundação Craveirinha

 Eduardo Quive - Maputo

Teve lugar ontem em Maputo, um evento de relançamento da obra Maria, do Poeta-mor moçambicano, José Craveirinha, o considerado poeta maior de Moçambique e distinguido Herói Nacional, pelo seu envolvimento para a libertação do País e integridade do negro, através da palavra.
O acto, encuadra-se nas celebrações do seu 89º aniversário do Nascimento do poeta, que se assinala no dia 28 de Maio.
José Craveirinha, considerado Poeta-maior de Moçambique

Craveirinha, tal como Malangatana, fizera sua luta através da arte e exerceu um fundamental papel para a elevação do nome de Moçambique além fronteira e interco0nalizou-se com a sua poesia que é o exemplo da Negritude.
A morte o surpreendeu a seis de Fevereiro de 2003, vítima de doença e a daí, os seus restos mortais foram depositados da cripta da Praça dos Heróis Moçambicanos oficializando-se, igualmente, a elevação do Homem a Herói Nacional.
Entretanto, depois da sua morte, a família Craveirinha submeteu nos finais de 2007, uma escritura para a criação da Fundação José Craveirinha, com objectivo de preservar o seu legado que constitui um autêntico valor cultural do país e do mundo, para além de existirem vários documentos por conservar e que podem ser de domínio público.
Zeca Craveirinha, filho do Poeta – mor, falando no acto de Homenagem e relançamento da obra “Maria”, por sinal, a última obra que seu pai lançou e a mais importante, disse que a maior preocupação da família é a preservação do legado histórico de José Craveirinha através da criação duma fundação com o seu nome, uma proposta que está a mais de três anos nas mãos do governo.
“Quando lembro-me do meu pai, ele inspira-me para mais alguma coisa, mas a minha maior preocupação é andarmos para frente com coisas concretas e isso não estou a ver. Já devia existir a fundação José Craveirinha e porque é que não existe?”.
Para explicar a sua preocupação, Zeca Craverinha prosseguiu afirmando que “a família já submeteu os estatutos ao Ministério da Cultura mas a anos estamos a espera. É isso que me preocupa.”
Quando perguntado se as acções do governo para Homenagear José Craveirinha satisfazem a família, Zeca respondeu que “é insuficiente. Estou preocupado”.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Kuphaluxa realiza Sarau de Poesia em homenagem a José Craveirinha


Centro Cultural Brasil-Moçambique
Embaixada da República Federativa do Brasil

COMUNICADO DE IMPRENSA

Kuphaluxa realiza Sarau de Poesia em homenagem a José Craveirinha

O Movimento Literário Kuphaluxa realiza no próximo sábado dia 28 de Maio, um Sarau de Poesia alusivo ao 89º Aniversário do poeta José Craveirinha.
O evento terá lugar na Casa do José Craveirinha, no bairro da Munhuana (Mafalala) arredores da cidade de Maputo, a partir das 15:00 horas e juntará vários declamadores e poetas que exaltarão a poesia do Poeta – mor.
Este Sarau será o seguimento do evento a decorrer no Centro Cultural Brasil Moçambique na quinta-feira, de relançamento da Obra “Maria”, outra actividade que visa homenagear o poeta!
O Kuphaluxa, pretende com este evento, fazer conhecer aos jovens, o Craveirinha para além de Poeta. Mas também, um Homem e Cidadão que fora e com certeza continua sendo, nas suas três vidas.
Calane da Silva, Pedro Muiambo, Sónia Sultuane, entre outros escritores, farão parte do evento como convidados especiais, para além dos declamadores dos grupos Poetas D´Alma, do Instituto Cultural Moçambique Alemanha (ICMA), Nkaringana Arte e os do Kuphaluxa.
A família Craveirinha, vai participar activamente neste evento e vai dar a conhecer alguns segredos de vida quotidiana com o Poeta, constituindo uma oportunidade única para os jovens amantes da literatura e da sociedade em geral.

Porque consideramos este evento de grande relevância sócio – cultural, convidamos ao Vosso prestigiado órgão de informação a divulgar e a garantir a respectiva cobertura do evento.

Qualquer informação adicional sobre o evento, estamos disponíveis a fornecer, podendo-se contactar os senhores:
Eduardo Quive – eduardoquive@gmail.com e (+258) 82 27 17 645
Nelson Lineu – (+258) 82 27 61 184
Ou mesmo pelos contactos do Movimento Literário Kuphaluxa, constantes deste documento!

Cumprimentos com Poesia!



Movimento Literário Kuphaluxa,
“Dizer, fazer e Sentir a Literatura”

domingo, 22 de maio de 2011

“Enganações de boca” de Luís Carlos Patraquim


Por Eduardo Quive

Directo, criativo e discretivo, é as crónicas de Luís Carlos Patraquim, editadas e lançadas em Livro, intitulado “Enganações de Boca”, num evento havido na última quinta-feira em Maputo.
Patraquim, depois de ter se estreiado na Prosa, com o livro “A canção de Zefanias Sforza” o escritor moçambicano com uma grande colaboração de Luis Cezerilo, coleccionou crónicas da sua autoria, publicadas na revista Angolé, na África Lusófona, e no semanário Savana.
Nas discrições de Luís Carlos Patraquim, numa volta em que convergem várias palavras e nomes como José Craveirinha, Hemingway, Amílcar Cabral, Shakespeare, Drummond, para fazer realce ao quotidiano e as visões de um homem cujas palavras circulam através da escrita, mas como qualquer homem, partem da boca.
Quem tentara descrever o autor, foi António Cabrita, amigo de longa data que amigavelmente, disse que Patraquim tem uma memória de elefante pelas coisas inesquecíveis que vem referenciadas no livro, e considerando ter acompanhado quase todos processos referenciados na obra, afirmou que na Crónica a Cidade Depois do Voto, há uma ilustração da qualidade de escrita do escritor.
“Chamou-me atenção o seguinte parágrafo: E me sentei no café iluminado, bebendo a cidade coreográfica, seu cada movimento intervencionando outras memórias no reajusto de continuidade na pose da mulher que passava. Há uma correspondência entre esta cidade concebida com mudança e o jogo da identidade para Patraquim e quem dança nesta dança em que o sol é um, é esta audição de Patraquim, nenhum de nós é só um.”
Ainda na semana passada, Luís Patraquim esteve em conversas discontraídas com a juventude, sobre a literatura e outras questões, uma vez ser característico neste escritor a intervenção em assuntos sociais de Moçambique e não só, principalmente através do conhecido programa radiofónico “Debate Africano”.

O escritor vem se destacando nos últimos tempos na prosa, depois de ter se destacado ou mesmo sido considerado poeta, pelas suas obras anteriores “Monção” “A inadiável viagem”, “Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora” “Mariscando luas”, “O osso côncavo e outros poemas” e uma Antologia de poemas dos livros anteriores e poemas novos.
Quando perguntado sobre o que falta fazer na literatura, o escritor disse que faltava fazer tudo, “na literatura já fiz tudo e falta fazer tudo”.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Festa da palavra na IIª Feira do Livro de Maputo

Por Eduardo Quive

(Maputo) - Exposição da palavra em livros, teve lugar no final de semana passada, no Jardim do Parque dos Continuadores em Maputo (FEIMA), aquando da realização da IIª edição da Grande Feira do Livro de Maputo (IIª GFLM). A poesia, música, danças, palestras e assinaturas de autógrafos, oficinas literárias, e livros fizeram o composto do evento.

Durante três dias de Feira do Livro de Maputo, a palavra foi exposta ao mais alto nível, consolidando objectivos diversos como a divulgação da literatura e do livro em geral, tendo igualmente, se homenageado aos poetas Amin Nordine e Malangatana Valente Nguenha.
Num ambiente em que 27 expositores, entre editoras, livrarias, produtores independentes, Centros Culturais e Embaixadas, estavam presentes, o público teve oportunidade de beber do melhor que existe na industria bibliográfica, não apenas moçambicana, mas também de outros países e continentes.
Foram lançados 14 livros, acompanhado de conversas e sessões de autógrafos com os autores João Paulo Borges Coelho, Calane da Silva, Mia Couto, Marcelino Dingano, Lina Magaia, Ungulani Ba Ka Khosa, Carlos Serra, Hipólito Sengulane, Jafete Matsimbe, entre outros.
No acto de abertura, o edil de Maputo, David Simango, disse que o livro é um objecto precioso para a busca de conhecimentos e desenvolvimento, daí a junção do Conselho Municipal de Maputo à iniciativa, brindando os munícipes com esta especial ocasião.
“O livro é pão de espírito, que precisamos para alimentar o saber e a partir deste, buscamos a ciência e preservamos a cultura dos povos.” Poetizou Simango.
Aliás, poético, foi também o discurso do ministro da Cultura, Armando Artur, homem que lamentou o facto de estar no evento como político, pois, a poesia, a literatura e o livro, são os verdadeiros alimentos da sua alma.
Armando Artur, disse que é momento de se fazer do livro, um instrumento fundamental para se alcançar o desenvolvimento e “um instrumento libertador da inteligência humana que liberta, igualmente, o povo da ignorância e da inculturidade”.
“O governo está ciente da importância deste bem, por isso que já foi aprovado pelo Conselho de Ministros a política do livro, tendo igualmente sido submetido a apreciação da AR tudo na perspectiva de se preservar o devido valor, tanto dos autores, como das obras “ concluiu.
A IIª Grande Feira do Livro de Maputo é uma iniciativa conjunta do Conselho Municipal de Maputo e do grupo Culturando, movimento constituído pelos Centros Culturais e missões diplomáticas em Moçambique, concretamente pelo Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), pelo Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), pelo Instituto Camões em Maputo, pelo Instituto Cultural Moçambique-Alemanhã (ICMA), e pelas Embaixadas da Bélgica, Espanha e Itália, numa parceria que inclui também a FEIMA e o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD).
A IIª GFLM tem como principais objectivos comemorar o Dia Mundial do Livro, promover o gosto pela leitura e estimular e facilitar o acesso à aquisição de livros a preços promocionais.
A animação cultural, foi mais um atractivo da Feira do Livro de Maputo, com os contadores de estórias, Rogério Manjate, Rafo Dias do Peru, declamadores de poesia, do Movimento Literário Kupaluxa, a quem coube abertura do evento e Poetas do ICMA, monólogos com as actriz portuguesa Filipa Casimiro e a moçambicana Maria Atália Cumbane e oficinas infanto-juvenis com a animadora portuguesa Tânia Silva.
e� 4 r �?� @1� 1996, a" w:st="on">1996, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura escolhida para a honrar a velha tradição da Catalunha segundo a qual, nesse dia, os cavalheiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge e, em troca, recebem um Livro. Em simultâneo, é prestada homenagem a obras de grandes escritores, como Shakespeare e Cervantes, falecidos no mesmo dia, em 1616. Assim, aquela tradição justifica que a partilha de livros e flores seja símbolos de prolongamento de uma longa cadeia de alegria e cultura, do saber e da paixão.

A UNESCO, ao declarar esta data, pretendeu potenciar o papel de vanguarda que o livro tem, enquanto um instrumento de formação humana e de erradicação do “analfabetismo funcional”, conceito adaptado por aquele órgão em 1978 e designa aqueles pessoas cujos conhecimentos não lhes permitem uma actuação eficaz no seu grupo, nem podem aplicá-los com fins claros e nem em contextos precisos.


Moçambique é uma nação de poetas, escritores, gráficos, impressores e livreiros, músicos e compositores. Todos têm empreendido esforços na revolução da cultura e a construção de desenvolvimento da nossa moçambicanidade.
Assim com a realização desta feira, está, mais uma vez, aberta uma oportunidade para, o conjunto, repensamos um novo paradigma de valores e conhecimentos profundos, desenvolver o nosso quadro legal para apoiarmos os nossos criadores e inventores, sem constrangimentos. É nosso desejo que com esta Feira, Moçambique passe, doravante, a entrar na rota regional e internacional de Feira s do Livro, de modo a que a nossa produção intelectual seja compartilhada, É igualmente importante que os nossos editores e livreiros estabeleçam laços de cooperação com editores e livreiros da região austral, de modo que as limitações linguísticas não constituem barreiras intransponível à fruição da leitura e do conhecimento. É por todas estas razões atrás arroladas que o Ministério da Cultura está a terminar a proposta da Política do Livro será o verdadeiro instrumento catalisador destes desideratos.
Façamos do livro, da música, do teatro, da dança, das artes plásticas, artesanato, fotografia, cinema, e vídeo, verdadeiros instrumentos de cooperação ao nível da SADC e do mundo.

A camada infanto-jovenil, endereço uma palavra de encorajamento; “o livro, seja de representação gráfica ou digitalizada, antecipa e consolida o nosso conhecimento, as nossas ideias, as nossas convicções e as nossas inquietações. Mesmo no mais irremediável isolamento, a leitura faz com que não nos sintamos sozinhos, preenchendo e animando a nossa solidão. De facto com o livro faz-se a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, o artesanato, a fotografia, e cinema e o vídeo, a poesia, entre outros. Por isso, “ É fundamental que os pais e encarregados de educação semeiam o hábito de leitura nas nossas crianças e jovens. É importante que a cada aniversário dos nossos filhos e não só cultivemos o habito de oferecer, como prenda, um livro. É com estes gestos que construímos o edifício do conhecimento.     

Permitam-me terminar esta minha intervenção, reiterando a minha saudação ao Conselho Municipal da cidade de Maputo que, com um raro sentido de oportunidade, soube dar guarida a esta lovável iniciativa do Grupo Culturando. Ao disponibilizar este belo espaço da FEIMA, o Conselho Municipal deu um sinal positivo à perenidade desta iniciativa. De ora em diante, a Feira do Livro da Cidade de Maputo terá a dignidade que bem merece.

Armando Artur: "Moçambique é uma nação de poetas, escritores, gráficos, impressores e livreiros, músicos e compositores"

Palavras do Ministro da Cultura de Moçambique, Armando Artur, na Feira do Livro de Maputo 2011

É com profunda satisfação e emoção que tenho a honra de m dirigir a todos aqui presentes, nesta secção que marca o início da feira do livro. Uma feira alusiva a comemoração do dia internacional do livro e do Direito de autor, organizada, conjuntamente, por instituição pública e privadas, entre livreiros produtores independentes, centros culturais e embaixadas baseadas na Cidade de Maputo, em parceria com o Concelho Executivo da Cidade de Maputo.

Gostaria, antes de mais, endereçar as minhas cordiais saudações a todos participantes desta sessão solene que marca a abertura dessa grande Feira do Livro de Maputo.
Uma saudação especial vai para o organizadores que pela segunda vez, e com empenho e dedicação, souberam proporcional aos municípios desta nossa cidade eventos desta nobreza, contribuído assim para que o livro seja um objecto acessível, quotidiano e indispensável na vida dos cidadãos.

Em segundo lugar, quero negociar o meu regozijo e profundo reconhecimento pela adesão de todos os convidados internacionais a esta grande Feira do Livro de Maputo. Este facto testemunha a grande importância que colectivamente damos ao livro, como instrumento imprescindível para o desenvolvimento. Como instrumentos. Bem-hajam todos e aí vão as minhas boas-vindas.

A realização desta Feira constitui uma iniciativa que visa contribuir na promoção da cultura e do conhecimento no país, na valorização e consolidação da nossa identidade e na criação artística; e vem comemorar o dia internacional do Livro e do direito do autor, assinalado a 23 de Abril corrente.

Importa também referir que esta feira acontece num ano muito especial: Ano Samora Machel, instituído em homenagem ao presidente ao Primeiro Presidente de Moçambique independente, e estadista que lançou e liderou um dos grandes desafios na construção da prática moçambicana; a redução dos índices do analfabetismo no nosso país. Por isso, o Presidente Samora Machel ensinou-se a fazer do livro um instrumento fundamental para vencermos o subdesenvolvimento.

Este evento não só proporciona aos estudantes, docentes, intelectuais, investigadores, políticos e aos citadinos em geral, uma oportunidade de acesso à literatura de interesse, desde o livro de leitura sortida aos de carácter académico. Como constitui, uma oportunidade para a troca de experiência sobre as melhores formas e estratégia de tornar o livro um instrumento libertador de inteligência humana; Um instrumento de libertação dos moçambicanos das garras da ignorância, da incultura e, também, da pobreza.


Comemorou-se a 23 de Abril de2011, o 15º. Aniversário da declaração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de autor. O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor é comemorado, por decisão da UNESCO, desde 1996, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura escolhida para a honrar a velha tradição da Catalunha segundo a qual, nesse dia, os cavalheiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge e, em troca, recebem um Livro. Em simultâneo, é prestada homenagem a obras de grandes escritores, como Shakespeare e Cervantes, falecidos no mesmo dia, em 1616. Assim, aquela tradição justifica que a partilha de livros e flores seja símbolos de prolongamento de uma longa cadeia de alegria e cultura, do saber e da paixão.

A UNESCO, ao declarar esta data, pretendeu potenciar o papel de vanguarda que o livro tem, enquanto um instrumento de formação humana e de erradicação do “analfabetismo funcional”, conceito adaptado por aquele órgão em 1978 e designa aqueles pessoas cujos conhecimentos não lhes permitem uma actuação eficaz no seu grupo, nem podem aplicá-los com fins claros e nem em contextos precisos.


Moçambique é uma nação de poetas, escritores, gráficos, impressores e livreiros, músicos e compositores. Todos têm empreendido esforços na revolução da cultura e a construção de desenvolvimento da nossa moçambicanidade.
Assim com a realização desta feira, está, mais uma vez, aberta uma oportunidade para, o conjunto, repensamos um novo paradigma de valores e conhecimentos profundos, desenvolver o nosso quadro legal para apoiarmos os nossos criadores e inventores, sem constrangimentos. É nosso desejo que com esta Feira, Moçambique passe, doravante, a entrar na rota regional e internacional de Feira s do Livro, de modo a que a nossa produção intelectual seja compartilhada, É igualmente importante que os nossos editores e livreiros estabeleçam laços de cooperação com editores e livreiros da região austral, de modo que as limitações linguísticas não constituem barreiras intransponível à fruição da leitura e do conhecimento. É por todas estas razões atrás arroladas que o Ministério da Cultura está a terminar a proposta da Política do Livro será o verdadeiro instrumento catalisador destes desideratos.
Façamos do livro, da música, do teatro, da dança, das artes plásticas, artesanato, fotografia, cinema, e vídeo, verdadeiros instrumentos de cooperação ao nível da SADC e do mundo.

A camada infanto-jovenil, endereço uma palavra de encorajamento; “o livro, seja de representação gráfica ou digitalizada, antecipa e consolida o nosso conhecimento, as nossas ideias, as nossas convicções e as nossas inquietações. Mesmo no mais irremediável isolamento, a leitura faz com que não nos sintamos sozinhos, preenchendo e animando a nossa solidão. De facto com o livro faz-se a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, o artesanato, a fotografia, e cinema e o vídeo, a poesia, entre outros. Por isso, “ É fundamental que os pais e encarregados de educação semeiam o hábito de leitura nas nossas crianças e jovens. É importante que a cada aniversário dos nossos filhos e não só cultivemos o habito de oferecer, como prenda, um livro. É com estes gestos que construímos o edifício do conhecimento.     

Permitam-me terminar esta minha intervenção, reiterando a minha saudação ao Conselho Municipal da cidade de Maputo que, com um raro sentido de oportunidade, soube dar guarida a esta lovável iniciativa do Grupo Culturando. Ao disponibilizar este belo espaço da FEIMA, o Conselho Municipal deu um sinal positivo à perenidade desta iniciativa. De ora em diante, a Feira do Livro da Cidade de Maputo terá a dignidade que bem merece.

Edição 1 - Nós - Artes e Culturas

TV-NUMA PALESTRA COM ESCRITOR BRASILEIRO, RUBERVAM DU NASCIMENTO