segunda-feira, 26 de agosto de 2013

ZOCO E ALY FAQUE: OS DEUSES AGRADECEM!


Zoco Dimande


Como falar de Aly Faque? Um homem de quem não entendo a língua, nem a tão melancólica expressão? Pois é, se ao artista fosse atento os gestos e a arte a língua em que ela é expressa, nós próprios, os signatários, os consumidores dessa arte, não nos compreenderíamos. É o que concluo sempre que tento aliar Aly Faque, aquela imagem que nos aparece nos concertos, ou nos vídeos das suas músicas ao músico mítico, em áudios. Compreender a expressão é um exercício após a própria arte. Arte, primeiro.
Começo a entender o duo Zoco Dimande e Aly Faque na música “Makhofu” do reportório “My Life”, a partir da poesia.
Aly Faque
A junção da voz inconfundível de Aly Faque aos acordes afros de Zoco Dimande é uma daquelas misturas fora do normal no panorama musical moçambicano da actualidade. Parece que numa altura em que os músicos compreendem que a solidão é a melhor saída, Zoco, entende o contrário, porque no mesmo álbum, pode-se ouvir ainda a participação de um dos monstros do hiphop moçambicano, Mr. Arsen.
Mas cabe-me aqui sentir ou ouvir (o que seria a mesma coisa, no entender de Meigos) o “Makhofu”, um som com sabores moçambicanos, de Nampula à Maputo, os batuques, a guitarra, e a voz melancólica do Aly Faque, aquele que serve-nos a sua voz em jeito de sentença pelas mágoas que andam connosco. Aly Faque, sem dúvidas, sabe ouvir o que sentimos. Canta como um Deus. Diz, poesia na sua expressão de reflectir as mágoas que assolam-nos, tornando-nos uns loucos ao fim da tarde, como escreveu Marcelo Panguana.
O que compreendo desse “Makhofu” que fiz questão de não me interessar pela sua tradução ao português que descolonizamos, pelo desafio que a própria arte nos impõe: a sua intradutibilidade. A arte compreende-se pelas sensações. Nada nos obriga a saber delimitar as condições que nos permitem distinguir o belo. Porém o belo é, por todos, conhecido/reconhecido.
Zoco Dimande e Aly Faque fazem uma simbiose de acordar os mortos nesse “Makhofu” e entendo-os como dois nostálgicos. Não sentem a saudade dos tempos, porém. É como se fosse o último adeus. Com certeza aquele som de flauta que vai se ouvindo no final da música, tem sabor ao bélico “O último Adeus” de Otis, esse outro “tocador” como cantaram os Gorwane, os nossos trintões meninos.
Efectivamente, o conflito de gerações é uma miopia desnecessária para as artes. Zoco e Aly cantam como se fossem meninos que crescem na mesma rua. Há uma intimidade, nesses dois músicos, capais de inventar outras intimidades com quem os ouve. Encontro nessa parceria, que também se repete em “Sumbulani” do mesmo álbum, uma mistura perfeita que Zoco Dimande faz ao seu afro jazz.
Porque nunca deixei de me preocupar, dirijo-me, agora dirijo-me, singularmente a ti, Zoco: para o primeiro trabalho discográfico, foste longe de mais como Luís Bernardo Honwana em “Nós Matamos o Cão Tinhoso”. Nesta situação, caro, a corda está nas tuas mãos, podes pendurar-te nela e morreres com honra ainda hoje, ou vá enfrente, e mostre-nos que és capaz de superar “My Life”, isto é, se a tua vida é capaz de superar-se.

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