segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A (des) vantagem de viver nas cidades


Citadinos de Maputo e Matola partilham espaço com imundice


Viver nas cidades de Maputo e Matola tem custado caro à saúde e moral dos respectivos citadinos. Além de altos preços de alimentos e de transportes que os tornam calejados, sendo frequente que cheiros nauseabundos provenientes de lixo, urina e águas turvas que tomaram o espaço que seria para promoção da saúde pública, como parques infantis e jardins. Por outro lado, os sanitários públicos escasseiam e os poucos que existem são um atentado à saúde humana.

Centrais feitas por Eduardo Quive
e fotos de Rogério Manhique


Os casos de imundice nas cidades de Maputo e Matola têm vindo a ganhar contornos alarmantes, multiplicando-se dia após dia nos últimos tempos, principalmente no tocante à gestão de resíduos sólidos urbanos e saneamento do meio.
Em muitos casos, vemos águas turvas escorrerem pelas ruas destas cidades, pessoas que urinam nas árvores e paredes em diversas avenidas e ruas, mesmo havendo alguns sanitários públicos, isto sem falar do lixo, um assunto que “vive” por baixo das barbas dos dirigentes.
Por outro lado, as casas abandonadas e os poucos sanitários públicos que existem têm sido outro atentado à saúde dos cidadãos que há muito reclamam sem ver respostas dos seus constrangimentos.
A equipa de reportagem do Escorpião foi à rua viver de perto a situação da imundície, que muito atenta contra saúde dos cidadãos, que já não podem conviver num ambiente limpo e saudável, nem mesmo ficar sentados para relaxar num banco da praça ou dos poucos jardins ainda existentes.
Na cidade de Maputo, por exemplo, os jardins e parques, embora alguns já recuperados, são lugares de proliferação de cheiros nauseabundos, inclusive, os sanitários públicos nos terminais são muros e árvores, como as do Museu da Revolução vulgo Jardim dos madjermane, são uma pura aberração, onde as qualidades de higiene são exíguas e o cheiro da urina supera qualquer outro cheiro.
Enquanto que sobre Matola, o problema maior é outro, concretamente o lixo. Esta cidade que conta com 672.508 habitantes de acordo com o censo/2007, várias estratégias de remoção de lixo falharam, sendo que no momento, até vias públicas foram tomadas por montes de lixo que se juntam às crateras provocadas pelas poucas chuvas que caem.
O homem também tem culpa no cartório, pois ajuda na destruição progressiva desta bela autarquia, alegadamente por falta de remoção do lixo, já que o que é recolhido não atinge a maioria da população.

As duas faces de Maputo e as diferenças do saneamento

Não obstante Maputo ser a cidade dos prédios e estradas, jardins e parques, existem zonas onde a vida é dura e sacrificada, com condições humanas de sobrevivência, aquém do desejado.
Aliás, falar desta capital sob ponto de vista de urbanização territorial, é falar de duas realidades, sendo a primeira, a de um Maputo, “limpo, belo e saudável” tão cantado pelo seu edil, David Simango e por outros; o Maputo com ruas que se chamam becos, sem nome nem avenida, com casas construídas à maneira e ao gosto de cada um, sem sistema de drenagem, nem filtração das águas.
Alguns desses bairros foram até dominados por famosos bandidos e ladrões, que até anos atrás, chamavam-se “G8”, mas que agora são os homens das catanas, disputando o poder com as autoridades policiais, que na verdade há muito perderam controlo destas zonas.
Falamos do caso concreto do mítico Bairro de Mafalala, onde nasceram e cresceram “grandes ilustres” da História moçambicana, nas diferentes áreas, como a cultura, no caso do também chamado poeta mor, José Craveirinha, Noémia de Sousa e no panorama desportivo, Eusébio da Silva Ferreira, exímio ponta de lança que actuou no Benfica de Portugal bem como na selecção de Portugal e Samora Machel, Joaquim Chissano e Pascoal Mucumbi, ex-presidentes e primeiro-ministro de Moçambique, respectivamente, políticos que viveram algum tempo neste bairro.
Outros bairros, como Maxaquene, Xipamanine, Polana Caniço, Chamanculo, Luís Cabral, Inhagóia são outros lugares que pouco se beneficiam das qualidades de vida doutro lado da cidade, como o ordenamento urbano bem estruturado, a remoção de resíduos sólidos, nem mesmo nas avenidas como nas ruas, onde os possam circular com tranquilidade, sem ter que disputar espaço com nenhuma gang nem outro cidadão, pela insuficiência espaço de circulação.
Segundo alguns moradores interpelados pela nossa reportagem nestas zonas, cujos nomes não aceitaram revelar, o desinteresse das autoridades em mudar as condições de vida nestes bairros é maior, embora sempre hajam encontros em que estes apresentam as suas queixas. Aliás, este até disse “o município sabe como é que se vive aqui na Mafalala, todo o governo, até jornais todos já publicaram sobre as nossas dificuldades, mas em que resultou?”.
Quando procurámos saber sobre a situação da recolha de lixo e o saneamento, estes foram unânime: “não entra ninguém para recolher lixo aqui, nós é que saímos para outro lado da cidade para deita-lo. Somos obrigados a sair das nossas casas com sacos de lixo até aos mercados, onde existem contentores”.
Outros males como a água de chuva, devem esperar a própria natureza para serem resolvidos, mas com todos os problemas dizem os moradores “que fazer…”.

Maputo projecta “transformar” Chamanculo C e Xipamanine

Entretanto, ficamos a saber que o CMC de Maputo tem em vista um projecto de requalificação do Bairro Chamanculo C, sendo que até ao momento, toda a engenharia financeira para a implementação do projecto orçado em cerca de três milhões de dólares já está montada, devendo, ainda no decurso do presente ano serem realizadas algumas acções concretas no terreno.
O anúncio foi feito, há dias, pelo edil de Maputo, David Simango, durante a visita efectuada ao distrito Municipal Nhlamankulu, no âmbito da presidência aberta, naquela localidade. Explicou tratar-se de um programa trilateral, que envolve Moçambique, Brasil e Itália, em termos de financiamento, estando-se neste momento na fase de concursos das actividades previstas no âmbito do projecto.
Apesar de já ter se identificado o empreiteiro, Simango esclareceu que as grandes intervenções vão acontecer ao longo do próximo ano, sendo que este último trimestre se destina à montagem de toda a estrutura organizativa e operativa e criação duma pequena sede a partir da qual o projecto vai ser coordenado.
“Do ponto de vista de grandes obras, só no início de 2011 é que vamos arrancar, mas já nestes meses de Novembro e Dezembro, vamos ter as primeiras intervenções. Vamos aproveitar a nossa visita ao distrito para falarmos com todas pessoas interessadas em particular os residentes no Bairro do Chamanculo C, explicando-lhes da importância do projecto e apelando à sua colaboração”.
As obras de reabilitação do Mercado Xipamanine e a construção de um terminal para viaturas de transporte de passageiros e carga naquele bairro, deverão ser realizadas em 2012, de acordo com a garantia feita por David Simango, na mesma presidência aberta.
A reabilitação do Mercado Xipamanine foi solicitada por munícipes, que o consideram símbolo da economia de Moçambique, enquanto que a construção de um terminal rodoviário foi pedida por operadores dos semi-colectivos de passageiros.
Entretanto, o presidente do Conselho Municipal de Maputo anunciou ter autorizado uma despesa de cerca de 70 mil meticais para a conclusão da pintura do muro do Cemitério de Lhanguene cujas obras em curso foram financiadas por Nini Satar.
“Foi feito um levantamento, tendo-se concluído que são necessários cerca de 70 mil meticais para a compra de tinta, e eu já autorizei essa despesa, pelo que, nos próximos dias, o sector de Salubridade e Cemitérios, através de brigadas nossas, vai completar a pintura”.
Relativamente ao projecto de reabilitação da Av. Milagre Mabote, Simango disse que o mesmo já está em curso e tem uma duração de cerca de oito meses, incluindo algumas obras de drenagem. “O projecto não prevê apenas a reabilitação da Av. Milagre Mabote, mas também a reparação das ruas transversais do Bairro da Malhangalene”, esclareceu aquele dirigente.

SITUAÇÃO DA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS NA PROVÍNCIA DE MAPUTO

Dados governamentais indicam que na província de Maputo, em particular nas vilas-sede, a recolha de resíduos sólidos não obedece sistemas específicos. Esta situação é na maior parte das vezes ocasionada pela exiguidade de meios.
As medidas adoptadas a nível da província não diferem das adoptadas na maioria das cidades e vilas do país, que incluem o enterro do lixo nos quintais ou locais de residência, deposição numa lixeira local ou incineração ao ar livre.
A componente predominante do lixo gerado na província de Maputo é de matéria vegetal, folhas e ramos de plantas.
Os distritos de Namaacha, Marracuene e Boane dispõem cada um deles de um tractor que recolhe o lixo apenas na área urbanizada que é depositado numa lixeira situada a cerca de cinco quilómetros da vila sede. Ainda no distrito de Boane localiza-se o aterro Sanitário de Mavoco, o qual foi concebido apenas para receber resíduos considerados perigosos provenientes da Mozal.

Matola

O Município da Matola garante a recolha do lixo através de camiões basculantes e dois skipps, cinco tractores e uma pá carregadora. A deposição é efectuada em duas lixeiras: Malhmpsene e Infulene.
Existem, na Matola, algumas empresas privadas que se dedicam à recolha de lixo para entidades específicas, tais como unidades fabris, não estando contudo a prestar serviços ao conselho municipal.

Manhiça

Possui dois tractores, um dos quais basculante, uma camioneta e a deposição final é feita em duas lixeiras. Manhiça tem vindo a beneficiar-se do projecto de reutilização de tambores, apoiado pelo FUNAB para a concentração do lixo na vila e sua posterior recolha pelos meios circulantes disponíveis.

Matutuine

Este distrito tem a particularidade de apresentar cenários distintos, isto é, no interior tem características rurais, mais para costa, apresenta característica urbanas.
A vila da Ponta D´ouro local onde se encontra a maior parte da actividade turística do distrito, a recolha do lixo é feita pelos operadores turísticos das suas estâncias para as duas lixeiras existentes no posto administrativo do Zitundo.
Para a população residente na vila, existe um tractor que garante a recolha segundo alguns operadores, a lixeira está sob gestão privada, sendo que pagam 60 meticais por cada despejo de lixo proveniente de estâncias turísticas.

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