segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Também a propósito da sua nova música: Neyma - Diva da Marrabenta?


Por Eduardo Quive

Saber cantar e cantar bem. Talvez esteja a falar de dois desconhecidos na música moçambicana. Se tal facto for verdade é mais uma daquelas injustiças que a boa arte dá aos verdadeiros artistas. Porém, este Moçambique não me espanta quando assim procede, até porque, o artista bom é, realmente, o que procede com o trabalho e, a fama, é uma consequência desse árduo empenho. Relembrando José Luís Mendonça, director do jornal “Cultura” de Angola, o maior problema que o mundo artístico enfrenta é dos senhores que criam as portagens no caminho dos artistas. Aqueles que dizem “o trabalho é o caminho, mas eu sou a portagem para chegares ao sucesso”. Na literatura são os críticos literários, mas não um qualquer, deve ser o das grandes universidades e o que os Mídias veneram. Mas na música, é diferente, o que dita o sucesso é o dinheiro e o imediatismo medíocre.
Quanto mais dinheiro o músico tiver, mais amiguinhos da comunicação social terá (locutores e apresentadores de TV, afinal, a imprensa escrita quase que não tem jornalistas culturais); quanto mais medíocre e imediatista for, e bom o suficiente para ajudar as rádios, já barulhentas, a promover o ruído, há mais probabilidade de se sair bem.

Em fim, muitos problemas e que, continuarão por mais tempo, pois, há todo um aparato, bem estruturado e montado para garantir a proliferação dessa sujidade sonora. Temos, por um lado, as grandes empresas que apoiam tudo que é de música e, por outro, a cumplicidade da comunicação social, enquanto o cidadão, passivamente consome sem nenhuma opção. Incrível, me parece que tal como a igreja Universal que comprou espaço em quase todos canais de televisão, essa música também soube garantir a sua esquina nos programas televisivos e radiofónicos.
Tive a honra de receber logo que ficou pronta a nova música da dita “diva da marrabenta”, a cantora Neyma Alfredo, com o título “Djin Ki dji ki dji”. Embora já sabendo de algumas recaídas de qualidade da nossa Neyma, não faltou-me a curiosidade de ouvir de imediato esse “single” que é proliferado por toda a cidade, com cartazes mais espalhados que os próprios discos, com uma foto da artista em alusão.
Escutei a música sentado e atento. Fiz questão de ouvir duas vezes, confesso que foi doloroso. Mas a função de jornalista cultural obriga-me a ter essa paciência. Foi um total aborrecimento. No momento pensei que fosse algo de errado a haver comigo, então, dei a mais três pessoas para escutarem. Dois se quer quiseram ouvir de novo, uma pelo menos dançou naquele ritmo estranho, com a voz da Neyma totalmente adulterada. Ah! Também há que ter voz para cantar uma boa marrabenta como se pretende!
Pelo que ainda vou percebendo, nem todas rádios fazem barrulho com tal música. Bom sinal. E penso que as outras tinham que seguir pelo mesmo caminho. O Banco Comercial e de Investimentos (BCI) tinha que ter pautado também por não pôr seu nobre nome na tamanha podridão e insulto à boa música moçambicana do estilo marrabenta que muito aprecio, conheço profundamente e vivo.
A verdade, senhoras e senhores, que seja sabida de uma vez por todas, Neyma Alfredo, não é diva da marrabenta coisíssima nenhuma, muito menos seja chamado “marrabenta”, nem por ela, nem por ninguém, aquele ruído electrónico que é publicitado como “Anima Marrabenta”. Se a cantora insiste em chamar aquilo de música, que dê outro nome. Mas marrabenta não. Nem como tal “diva” nem como cantora de outras coisas, como bem sabe fazer, tem essa autonomia.
Aliás, pelo que me lembre, o que tem mais, a cantora Neyma são passadas (o que pelo menos cantou com empenho) que a música no estilo marrabenta. Como é que se tornou “DIVA DA MARRABENTA”? O que é e o que fez para merecer tal título? Quem a atribuiu? E que competências têm, as tais pessoas que lho deram o título?
Outra verdade importante é que, é mais honrado quando o artista ganha os títulos por mérito, não pela gula do que muito mal faz. E por último, não devia ser a imprensa a multiplicar esses títulos. No papel de fazedores de opinião pública, críticos, “pessoas conhecidas da matéria”, é importante saber-se fazer algumas perguntas, aquelas que sei que muitos desses mass mídias não têm obedecido: “Quem?, o quê?, porquê?, como?, quando?, onde? e como?”. E o mais importante sempre fazer uma pergunta no final, “será que é socialmente relevante?”
Assim poderemos dizer com propriedade o que é música, marrabenta, ou qualquer outra mediocridade como nos sugere esta cantora, não diva da marrabenta. E o medíocre deve ter o seu devido tratamento, muito bem separado a o que merece o melhor.
Mesmo sem mais nada a dizer, é bom lembrar que o País enferma de uma grande desgraça. Os títulos autoproclamados. Primeiro foi Dilon Ndjindji a chamar-se de “rei da marrabenta” e agora temos uma “diva da marrabenta”, isso, certos de que esse género musical que já foi candidato à património da humanidade na UNESCO é definida por marcas únicas e, ao que me parece, nos últimos tempos quase que difícil de ouvi-lo na voz dos cantores, como puderam fazer os falecidos. Então honremos esses nossos defuntos que merecem uma sucessão ao nível da sua vaidade e bom gosto.

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